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«Ajudei a fazer o 25 de Abril, nunca pensei ver hoje o país assim»

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joaninha


Fuga Power
Fuga Power
Em números, seriam mais de 50 mil os trabalhadores que percorreram as ruas de Lisboa em protesto. Mas é isso que eles não querem ser, apenas números, como acusam o Governo de os tratar. Queixam-se de pensões baixas, precariedade laboral, desemprego. Queixam-se de que estão a pagar a crise que outros criaram. Fomos ouvir algumas histórias com nome e rosto.

Saímos do Marquês às 15:30, já uma fila de gente a perder de vista se estendia em direcção ao Rato. Carregados de cartazes com as frases de sempre e as «bocas» marcantes dos debates parlamentares, como o «Manso é a tua tia, pá», iam gritando palavras de ordem.

Logo nos primeiros metros fomos interpelados: «Ponha aí o meu nome, para saberem que eu estive cá». Quem tanto fazia questão de marcar a presença na jornada de luta era Manuel Gomes do Amaral. Contou-nos que é reformado da Siderurgia Nacional. «Trabalhei lá 29 anos», conta, lamentando que agora não tenha «uma reforma digna».

«Vejo um futuro muito negro para os meus filhos e para os meus netos. As condições de vida têm-se degradando de dia para dia», diz ainda, enquanto vai incentivando quem passa.

Fomos subindo ao som dos slogans e de «Hasta Siempre», a música que Carlos Puebla dedicou a Che Guevara. Ao cimo da rua está a representação do PCP: Jerónimo de Sousa e Francisco Lopes. Mantiveram-se ali durante algum tempo. Falaram com os manifestantes, incentivaram-nos a «continuar a luta», acederam aos pedidos de beijinhos e posaram até para as fotografias que três trabalhadoras tiraram com destino certo: «pôr no Facebook».

«Jerónimo, amigo, o povo está contigo», houve quem gritasse ao passar. E, meio a brincar, meio a sério, (até porque a brincar se vão dizendo as verdades), houve quem cantasse uma música diferente: «é muito, muito feio ficarem no passeio».

Adiante está grupo de espanhóis com cartazes em castelhano a dizer «huelga geral». Juana Lourenço conta que é professora em Portugal há seis anos e vai vivendo a crise nos dois lados da fronteira. No dia em que no seu país a greve se transformou numa batalha campal, a professora lamenta que, lá como cá, «sejam sempre os trabalhadores a pagar a crise».

Mais uns metros e um cartaz, no meio de milhares, chama-nos à atenção. A crise despertou em José Silva, de 58 anos, a veia poética. Funcionário da Carris há 38 anos mostra-se «decepcionado» com a situação actual. «Ajudei a fazer o 25 de Abril, nunca pensei ver hoje o país assim». As notícias recentes corroboram o desalento: «aumentam tanto os impostos, e depois a dívida pública está como está. Pedem sacrifícios, mas o Governo deve ser o primeiro a fazê-los», afirma.

José Silva conta que, por uma greve, 26 trabalhadores da empresa estiveram seis dias suspensos e têm processo em tribunal. «Não teme que lhe aconteça o mesmo?» «Em vez de 26, passamos a ser 27», responde. «É o preço a pagar, mas vale a pena perante o ponto a que a situação chegou».

Quando o cortejo chega em frente à Assembleia da República alguém começa a gritar «mentirosos», os restantes manifestantes juntam-se-lhe num coro mais direccionado: «mentiroso, mentiroso».

Entre os jovens que seguravam uma enorme faixa em frente ao palco improvisado numa carrinha da CGTP estava Nuno Francisco. Electricista, de 27 anos, explica que até tem emprego, e «depois de vários anos em empregos precários em que podia ser despedido de um dia para o outro» (e foi mesmo), está efectivo. «Sou a excepção», lamenta, recordando os milhares de precários. Para este manifestante, esta é aliás uma das razoes por que não há mais jovens nesta jornada de luta: «Têm empregos precários, temem sofrer represálias se vierem».

E lamenta que haja uma inversão da realidade. «Muito ficam satisfeitos por terem emprego, mesmo que precário. Pensam que o emprego é um privilégio, mas é um direito».

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